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O lugar estava deserto, mas eu sentia cheiro de comida. Comida boa, aliás. Deduzi que pelo cheiro devia haver alguém cozinhando e, depois de muita procura, poderia obter alguma informação sobre aquele lugar.

Haviam várias barraquinhas, todas com fogões e panelas em cima, com o fogo aceso. Algumas tinham comida em cima do balcão, mas nem sinal de pessoas. Já passava das quatro da tarde e eu estava morrendo de fome.

A primeira vista parecia uma feira, então, obviamente aqueles pratos em cima do balcão seriam para a venda. Exausto e faminto, pensei com a lógica de um retardado que eu poderia pagar depois pela comida que eu comeria. E parti pra cima dos pratos.

Coxinhas de frango assadas, ensopadas, carne bovina assada e ensopada também, arroz, legumes… Tudo parecia delicioso, como se eu nunca tivesse comido essas coisas antes. Tinham um sabor diferente de tudo que eu já havia provado, e quanto mais eu comia, mas sentia fome.

Fiquei comendo por um tempo, sem noção de que estava anoitecendo. Com a noite vieram sombras. Esquisitas, não tinham formato humano. Se moviam como se estivessem flutuando, como se a sombra fosse a sua própria forma, e não somente a projeção de algo.

De repente me senti estufado. Porém não consegui parar de comer. Minhas roupas rasgaram, senti que estava inchando. A este ponto minha gula era tão grande que já não comia usando talheres, pegava a comida dos pratos com a boca mesmo. Até porque não conseguiria utilizar talheres, uma vez que minhas mãos e pés haviam se transformado em patas de porco.

Baseado no belo filme “A viagem de Chihiro”

Categoria: Loucura, Viagem  Tags:  Um comentário
07
ago
Postado por Paulinha

Sempre fui muito solitário. Aos 10 anos fiquei órfão. Fui morar com meus tios, que nunca se empenharam em me criar como filho deles. Já tinham os seus.

Sempre fui independente. Na verdade fui obrigado a sê-lo. Mas não reclamo, me tornou o que sou hoje, homem maduro e equilibrado.

Porém isso não impediu que eu me sentisse só. A solidão sempre caminhou ao meu lado, mesmo eu estando dentre multidões.

Fantasiava em ter muitos amigos, uma família grande. Porém o máximo que consegui foi um cachorro.

Dentre as minhas fantasias estava a de ter uma namorada. E minha solidão é tanta que chegava a imaginá-la em minha cama, na mesa de jantar, dentro do banheiro tomando banho comigo…

Imaginava ela aparecendo ali, do nada, cheia de amor pra dar, sem me julgar, sem querer saber meu nome e sobrenome ou onde trabalho. Só queria que ela estivesse ali.

E um dia ela apareceu. Estava tomando banho e imaginando-a ali em minha frente. Desejei isso com tanto fervor que algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto sem que eu percebesse, e se misturaram com a espuma do xampoo.

Abri os olhos e ela estava ali, linda, morena, nua, olhando para mim e sorrindo.

A princípio pensei que fosse apenas o resto do meu fervoroso desejo que ela aparecesse. Mas quando ela disse meu nome eu acreditei no que via.

Não fiz perguntas, não me assustei, nem quis saber como ela chegou ali. Apenas a abracei e chorei. Ela retribuiu ao abraço. Depois de algum tempo ela se afastou e começou a falar. Disse que ficaria comigo por uma semana e neste período realizaria todas as minhas fantasias, meus sonhos mais profundos, seria minha mulher. Também teria muitos amigos e poderia conhecer qualquer lugar do mundo. Mas somente por uma semana.

Obviamente aceitei. Nem que fosse por apenas um curto período gostaria de me sentir amado.

- Mas há uma condição. – disse ela. – Você poderá realizar todas as suas fantasias durante sete dias, mas após este período você será preso numa cela, sozinho, e não verá mais ninguém pelo resto da sua vida.

Fiquei paralisado por alguns instantes. Quase abri a boca para dizer que concordava, mas ponderei. Valia a pena perder uma vida por alguns instantes de felicidade? Será que a lembrança destes momentos felizes me aquecerão nos momentos tristes que se seguirão? Será que um alcoólatra pensa na ressaca antes de tornar a beber?

Ela me deu tempo para pensar. Um dia. Em um dia irei decidir o resto de minha vida.

04
ago
Postado por Paulinha

Acordei meio psicopata hoje

Chutei meu gato

Destratei o porteiro

Xinguei o motorista

Enquanto andava de ônibus, pensava em atear fogo em um banco

Desligar o disjuntor de algum hospital

Mandar o chefe à merda

Pensava … pensava … pensava…

E pensando demais acabei passando do meu ponto de descida.