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09
set
Postado por Paulinha

Era uma vez uma barata infeliz. Ela era infeliz porque queria ser uma joaninha. Achava sua existência de barata muito inútil.

Todos a olhavam com cara de nojo. “Mas eu tomo banho todos os dias”, pensava ela. Não olhavam com cara de nojo pra uma joaninha, mesmo que ela só andasse com aqueles cascudos roladores de m*rda.

Crianças não pegam uma barata na mão e mostram pros amiguinhos. Eles mostram pros amiguinhos como a barata se esborracha debaixo da sola dos seus sapatos.

Joaninhas são coloridas e redondas, parecem uma balinha. Baratas são marrons, compridas e achatadas, e se parecem com côco.

As joaninhas passavam pelas baratas voando e rebolando, balançando seu traseiros redondos e coloridos, e rindo da pobre da barata, que nem voava, de tanta vergonha que tinha de si mesmo.

Mas um dia isso mudou. Alguém jogou uma bomba atômica e matou todo mundo, do mundo inteiro. Até as joaninhas morreram. Só ficaram as baratas. E agora a barata se sente infeliz porque está muito solitária.

Categoria: Solidão  Tags: ,  6 comentários
07
ago
Postado por Paulinha

Sempre fui muito solitário. Aos 10 anos fiquei órfão. Fui morar com meus tios, que nunca se empenharam em me criar como filho deles. Já tinham os seus.

Sempre fui independente. Na verdade fui obrigado a sê-lo. Mas não reclamo, me tornou o que sou hoje, homem maduro e equilibrado.

Porém isso não impediu que eu me sentisse só. A solidão sempre caminhou ao meu lado, mesmo eu estando dentre multidões.

Fantasiava em ter muitos amigos, uma família grande. Porém o máximo que consegui foi um cachorro.

Dentre as minhas fantasias estava a de ter uma namorada. E minha solidão é tanta que chegava a imaginá-la em minha cama, na mesa de jantar, dentro do banheiro tomando banho comigo…

Imaginava ela aparecendo ali, do nada, cheia de amor pra dar, sem me julgar, sem querer saber meu nome e sobrenome ou onde trabalho. Só queria que ela estivesse ali.

E um dia ela apareceu. Estava tomando banho e imaginando-a ali em minha frente. Desejei isso com tanto fervor que algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto sem que eu percebesse, e se misturaram com a espuma do xampoo.

Abri os olhos e ela estava ali, linda, morena, nua, olhando para mim e sorrindo.

A princípio pensei que fosse apenas o resto do meu fervoroso desejo que ela aparecesse. Mas quando ela disse meu nome eu acreditei no que via.

Não fiz perguntas, não me assustei, nem quis saber como ela chegou ali. Apenas a abracei e chorei. Ela retribuiu ao abraço. Depois de algum tempo ela se afastou e começou a falar. Disse que ficaria comigo por uma semana e neste período realizaria todas as minhas fantasias, meus sonhos mais profundos, seria minha mulher. Também teria muitos amigos e poderia conhecer qualquer lugar do mundo. Mas somente por uma semana.

Obviamente aceitei. Nem que fosse por apenas um curto período gostaria de me sentir amado.

- Mas há uma condição. – disse ela. – Você poderá realizar todas as suas fantasias durante sete dias, mas após este período você será preso numa cela, sozinho, e não verá mais ninguém pelo resto da sua vida.

Fiquei paralisado por alguns instantes. Quase abri a boca para dizer que concordava, mas ponderei. Valia a pena perder uma vida por alguns instantes de felicidade? Será que a lembrança destes momentos felizes me aquecerão nos momentos tristes que se seguirão? Será que um alcoólatra pensa na ressaca antes de tornar a beber?

Ela me deu tempo para pensar. Um dia. Em um dia irei decidir o resto de minha vida.