Arquivos da tag » Tristeza «

20
mar
Postado por Paulinha

Viver uma vida entregue a uma solidão que não tem início nem fim, sem ideais e sem expectativas. Vive a se segurar, o  cigarro,  enquanto o acende, pelo filtro entre os dentes. Isso é a vida de um viciado.

Tem o incômodo de estar sozinho sem ser observado, um tédio. Um   humor inconstante, sempre disposto a encontrar emoções em tornos de  amigos. Gosta sempre  de ser e estar presente a eventos periodicamente, sempre com seu cigarro nos lábios, e a fumaça a correr entre os convidados, sem falar dos pulmões.

Não se sabe ao certo chegar ao mesmo lugar, ou estar nele. Porque  desde que começou a baforar, descobriu o mundo do vicio. Tornando-se entorpecido. Um ser vazio, indefinido e sem emoções.

Às vezes clama os  precipícios dos vícios químicos e também das amizades sem futuro. Está sempre com  um sorriso aberto a conquistas, tornando-o uma pessoa sem ego. A sua  maior característica é a de ficar entorpecido  por químicas diferentes.

Porventura o seu  amanhecer gera sempre uma expectativa real de melhoria por algo esperado. Mais não  se deixar passar despercebido pelo mundo das sombras. Vive sempre perdido em meio à selva de suas próprias insignificâncias. Uma vida  vegetativa,  seguindo hábitos, mais por comodismo, do que por satisfação pessoal.

Muitas vezes em seu ambiente cotidiano, se torna um personagem criado para esconder, mais tristezas do que alegrias. O importante para o viciado é compartilhar. O fato é que sua  forma de ludibriar a solidão insistente é muito inquietante. A sua companhia opcional. O vicio.

O importante para ele é está reunido com todos, exalando o aroma do cigarro embriagante,  misturando a predileção da baforada do cigarro. A falta que  faz pela manhã, ou durante o dia, lhe acende a vaidade e o egoísmo de prestar atenção apenas em si mesmo.

É sempre assim, um  maço de cigarros, atrás do outro. Muitas vezes,  o estômago revira. Nem mesmo isso, o incomoda, muito menos  o gosto da nicotina na boca,  misturado com alguma coisa. Sua companhia inseparável. Sempre o tem no bolso da calça ou diante dos seus olhos.

Com ele se vê o espelho de nós mesmos. Mais uma coisa é certa, quanto maior é o mau que ele propaga, maior é o desejo de tê-lo na boca e exalar.

Conto enviado por Maria do Carmo

16
fev
Postado por Paulinha

Ela estava tomando banho. Era uma das partes mais divertidas do seu dia. Ali podia pensar, viajar em seus sonhos, afinal, ninguém iria entrar ali. Era o seu refúgio.

Seus pais viviam reclamando que ela demorava muito no banho e ameaçavam começar a cobrar a conta de energia. Ela nem escutava.

Ali, podia fingir ser qualquer coisa, qualquer pessoa. Podia conversar com as paredes, imaginar estar rodeada de celebridades, ser alguém muito importante, talvez até presidente! Mas tinha que falar baixo, pois seus pais por muitas vezes conseguiam ouvir suas conversas, e caçoavam dela por isso.

Imaginava ser alta, magra, bonita, morena, de olhos claros… Imaginava ter muito dinheiro, poder viajar pelo mundo, conhecer muitas pessoas diferentes. E imaginava namorar alguém legal, de preferência um ator ou cantor. E por muitas vezes chorava, pois não era nada disso. Era baixinha, gordinha e seus olhos eram castanhos. Não tinha dinheiro, só o que seus pais lhe davam de mesada, o que não dava nem para comprar uma calça.

Ás vezes chorava muito, e desejava com todas as forças que tudo aquilo com que ela sonhava se tornasse realidade, como em um passe de mágica. E se desesperava quando abria os olhos e via que nada acontecia. Mas foi diferente desta vez.

Quando ela abriu os olhos, o que viu não foi a parede do banheiro. Foi alguém, ou algo, que talvez muitos de nós, os que acreditam é claro, não desejariam encontrar jamais.

- Boa noite, moça. – disse a coisa com uma voz rouca, que parecia fazer eco dentro de si mesmo.

Ela não conseguiu responder. Sua respiração se tornou ofegante, os olhos se arregalaram, a boca se escancarou. Mas nada saia dela.

- Não precisa se assustar, não vim lhe fazer mal, apesar do que falam de mim por aí, não isso tudo não, sabe.

Mais uma vez ela não conseguiu dizer nada. Mas pelo menos conseguiu fechar um pouco a própria boca.

- Então, tenho ouvido suas conversas diárias com a parede do banheiro. Ouvi também seus choros, criança. Sabe, se eu fosse um qualquer, diria pra você aceitar o que você é e talz. Mas né, não sou um qualquer, como você deve saber.

Neste momento ela conseguiu balançar a cabeça em afirmativo, pois sabia muito bem o que era aquela criatura, o padre já lhe alertara sobre isso desde muito nova.

- E como eu meio que cansei de assistir você chorar, pensei: porque não realizar estes sonhos todos? Eu posso fazer isso. – disse a coisa, balançando os ombros.

- Mas como nada vez de graça – nem do branquinho lá – é claro que quero algo em troca.

- Minha alma? – apesar de ter conseguido recuperar o fôlego para dizer esta pergunta, os olhos ainda estavam arregalados.

- É. Simples e direto, sem complicações, sem provações e essas baboseiras todas. Te dou três desejos e você me dá a alma. Simples assim.

- E o que acontece quando eu morrer?

- Você sabe o que vai acontecer.

Por um momento, a reação automática que quase saiu foi a de recusar a oferta. Já havia sido doutrinada a isso na igreja. Mas pensou de novo.

- Se você recusar, criança, não me verá mais. Pense bem, é a sua grande chance.

Então ela considerou realmente a oferta. Era jovem e infeliz. Com três desejos, podia se tornar rica e linda. Podia viajar o mundo. Podia conhecer muitas pessoas. Podia arranjar um namorado. Podia ser feliz, finalmente.

- Como é lá? – perguntou, na esperança de que não fosse tão ruim.

- Não posso lhe responder isso. É contra as regras, não minhas é claro, que os vivos saibam do lado de lá. O que eu acho muito chato, sabe.

Então ela ponderou. Será mesmo tudo isso que falam todo domingo? Será que não é suportável? E então ela pensou em tudo que poderia ser. Tudo o que sempre sonhou se realizar assim, em uma passe de mágica. Por fim, concluiu: foda-se.

- Meu primeiro desejo é ser rica, muito rica.

- E como você quer ser rica? Sabe como é, tem que ser de acordo com a regras daqui. Como você explicaria milhões aparecendo na sua conta bancária assim, do nada?

- Tá, então quero saber os números que vão cair na megasena de sábado.

- OK, feito. Estão anotados na sua agenda, em cima da sua escrivaninha.

- Meu segundo desejo é ser linda, muito linda. Quero ter olhos azuis, lábios carnudos, alt…

- Péra, péra, péra. É muita coisa pra um desejo só. Sabe, cada coisa aí que você disse tem que usar um desejo. Você está trapaceando.

- Hmm… Então posso usar um desejo para pedir desejos extras?

- Hehehe – a coisa deu uma risadinha maliciosa – pode sim, mas isso irá lhe custar cinco anos da sua vida.

- Bom, e quando eu vou morrer?

- Também não posso lhe responder isso. E não adianta usar um desejo para prolongar a sua vida. Quem dita essas regras é osso duro, cê sabe.

- Então, vou usar um desejo para ter uma boa saúde e nunca ter doenças.

- Mas ainda restam os acidentes.

- É só eu tomar cuidado. Então vejamos: assumindo que posso viver até os 90 anos, se eu tiver uma saúde boa, acredito que posso sacrificar 30 anos, para viver até os 60. 90 anos é muito. Isso me rende 6 desejos extras.

- Se você diz… – disse a coisa, sorrindo.

- Muito bem, é isso. Meu segundo desejo é nunca ter nenhuma doença, nunca.

- Feito.

- Meu terceiro desejo é medir 1,75.

- OK.

E neste momento ela esticou. Viu o chão se afastar um pouco. Vendo que surtiu efeito imeditato, começou a usar os desejos extras. Boca, nariz, cabelos, barriga, dentes, braços. Gastou os seis desejos em pouco tempo.

- Então, mais alguma coisa?

- Não, acho que está bom assim – disse ela olhando-se no vidro do box, admirando seus cabelos novos, boca e tudo o mais.

- Que assim seja. Nos vemos em breve. – disse isso e foi embora.

Ela ficou ali, se olhando no vidro do box, tão feliz que não podia acreditar. Depois de alguns minutos decidiu sair do banheiro para se admirar no espelho do seu quarto, que era de corpo inteiro. Porém, quando ela abriu a porta do box e pisou no azulejo do lado de fora, este estava molhado e ela escorregou. A cabeça bateu na beirada da privada, quebrando seu pescoço, causando a sua morte. Morreu linda e rica, porém.

31
mar
Postado por Paulinha

Acordei hoje e estava tudo escuro. Mais uma vez. Já fazem três meses que o dia não chega, que a noite não termina.

O tempo todo é escuro, sombras em todos os lugares para onde olho. As pessoas andam cabisbaixas, encolhidas, por causa do frio e pelo desânimo do escuro.

O Sol me faz falta. Sinto falta de acordar com a luz do amanhecer no rosto. De sentar na varanda e tomar café observando a luz do Sol refletir no orvalho da manhã. Agora não tenho ânimo nem de sair da cama.

Meus ossos doem, a cabeça pesa. Meus ombros parecem carregar o peso do mundo. Estou tão desanimado que não tenho vontade nem de ir trabalhar. Aliás, me pergunto: como pude aceitar um emprego em um lugar que as noites duram seis meses?

Sinto que estou enlouquecendo.