Havia me mudado semana passada para uma cidadezinha escondida do mapa. Precisei perguntar para pessoas na beira da estrada porque não encontrei placas nem indicação no mapa. Nada.
A cidade era aconchegante, interiorana. O pessoal era bem quietão, dei bom dia pra alguns e recebi apenas olhares curiosos em troca. Mas não desanimei, estava decidido a prosseguir com meu estudo de caso para terminar meu livro.
Escureceu rápido. Seis horas e já era completo escuro. “Deve ser a estação do ano”, pensei. Somente depois me dei conta que a estação do ano em que estávamos era pra escurecer somente após as oito da noite.
Após jantar e ler um pouco, fui espiar pela janela. Vi algumas pessoas passando, em silêncio. Achei estranho não haver nenhuma conversa, mas tudo bem, tudo me parecia estranho mesmo.
Lá pelas dez da noite me recolhi. O quarto ficava no segundo andar da casa, me dando uma visão privilegiada da cidade. Podia ver o telhado de algumas casas e até dentro do quarto das casas que possuíam dois andares. Gostei da casa.
De madrugada o som de uma canção de acordou. Acordei e me sentei na cama, porém tive a impressão de ainda ser um sonho. Olhei pra janela e percebo uma pessoa me olhando. Mais uma vez acreditei ser um sonho. Ela dizia “Abra a janela, Tom. Deixe-me entrar” num tom suave, como se estivesse cantando. Era a melodia mais linda que já ouvi na vida. Sensual, a melodia entrava na minha cabeça e foi tomando conta da minha alma.
Caminhei até a janela sem sentir meus pés se movimentando, abri a janela sem sentir minhas mãos tocando o metal frio do trinco. A mulher me olhava dentro dos olhos, e falava comigo sem mexer os lábios. “Deixe-me entrar, Tom”, repetia ela, “Diga que posso entrar”. E eu falei, sem sentir meus lábios se mexendo, sem ouvir o som da minha própria voz. “Entre”, disse, e ela entrou com os braços esticados vindo em direção à mim. Estava tão atordoado que nem percebi que ela não caminhava, flutuava. Era a coisa mais linda que já tinha visto.
Ela chegou perto de mim e passou a mão nos meus cabelos. Senti um arrepio subir pelas minhas costas, terminando na nuca, onde ela havia colocado as mãos. Chegou perto do meu rosto e pude sentir seu perfume. Um perfume doce e suave, que até hoje está na minha camisa de dormir.
Ela foi se aproximando do meu rosto, desviou da minha boca e foi chegando perto do meu pescoço. Mais alguns arrepios subiram pelas minhas costas, mais uma vez. Senti seus lábios tocando minha pele e perdi totalmente o controle das minhas ações. Tudo que ela dissesse eu faria.
Ela puxou minha camisa em direção ao meu ombro esquerdo. Parecia que eu já sabia o que estava para acontecer, e concordava. Porém neste momento ela soltou um grito agudo e me empurrou para trás. Nos primeiros momentos não entendi o que aconteceu, mas depois me dei conta que estava com a corrente que mamãe me deu no último Natal. E nela havia um crucifixo. A mulher havia tocado os lábios justamente em cima do crucifixo, que estava em cima do meu ombro esquerdo. Toquei o crucifixo com pavor e o ergui em direção à mulher. Não me lembro do porque de ter feito isso, foi instintivo. Ela se afastou mais, ainda gritando, e saiu pela mesma janela por onde havia entrado.
Hoje me recordo de ter trancado a janela e fechado a cortina após a mulher sair, porém fiquei acordado até o sol nascer e, quando isso aconteceu, juntei todas as minhas coisas, joguei no carro e sai correndo daquela cidade horrorosa. E ainda de pijamas.











