“Olhei-o. Vi que estava lá, no “seu” lugar, com seus “amigos”. Seus olhos não. Seus olhos estavam lá em cima, como sempre. Seu coração, só Deus sabe onde estava e como estava.
Acordara aquela manhã decidida a acabar com tudo. Não havia mais tempo a perder.
Enquanto me encaminhava ao centro, dei uma última olhada, mas desviei o olhar quando o dele se encontrou ao meu. Não quero nem pensar no que ele viu em minha expressão àquela hora. Talvez tenha visto tudo o que estava prestes a acontecer.
Estava na hora. Tirei meus sapatos e meias e os pus de lado. Ajoelhei-me, pus a mão esquerda sob meus olhos e a mão direita voltada ao céu. Pronunciei algumas palavras em pensamento e repeti-as, diversas vezes, até sentir minha mão direita queimar como brasa, quando a abaixei. A essa altura todos estavam prestando atenção em mim, tirando suas próprias conclusões. Precipitadas ou não, todos estagnaram quando viram algo no céu.
O que mais parecia uma mancha disforme amarelada foi se aproximando do solo, tomando forma. Se aproximando de mim, que agora estava com as duas mãos juntas, no chão à minha frente e minha cabeça, apoiada nelas. Esse era o pior momento. Histórias antigas contavam que é nesse momento que as razões se confundem e você é tomado pela dúvida. Se não quiser muito isso, acaba se entregando à desistência. Talvez pela presença do Verita*, que não realizava sua missão sem antes sentir a presença da certeza no coração de quem se entrega ao Sacrifício. Caio viu a certeza no meu coração e assim, me libertou. A dor era forte, mas prazerosa. Minhas asas estavam doloridas e eu sentia-as fracas. Estiquei-as, esticando também meu corpo, enquanto mantinha meus olhos fechados. Caio aguardou e em seguida me perguntou em meus pensamentos:
- Quem?
Respondi apontando meu dedo em direção a ele. Enquanto Caio caminhava ao seu encontro, ousei abrir os olhos e ver sua reação. Ele estava assustado, difícil dizer por quê. Talvez seja o fato de me ver com asas, ou ver um Anjo enorme com vestes douradas e ar maligno vindo em sua direção, ou ainda, a simples razão de ver que existem anjos. Conhecendo-o bem, achei que fosse desmaiar naquele momento. Não tive coragem de ver a cena seguinte. Caio parou defronte dele e estendeu sua espada, fincando-a em seu peito. Enquanto ele agonizava de dor, Caio retirara a espada, manchada de um líquido branco. Ele desmaiou em seguida.
Eu sentia que minha hora estava chegando. Mas nenhum sinal de arrependimento apareceu em meu coração. Era o certo a fazer.
Caio retornou até mim, dizendo-me silenciosamente:
- Branco é uma cor perigosa. Sua dor é difícil de ser suportada. Pensas em mudar de idéia ou já estas com a decisão tomada? Sabes o que acontece depois. Posso ir-me se assim quiseres…
- Não. – interrompi. – Possuo clareza sobre as conseqüências do que estou a fazer. Continua a tua parte.
Assim o fez. Fincou a espada em meu peito. A dor era realmente insuportável, mas ela só me trouxe mais certeza ainda. Eu sabia que meu espírito Mentire iria deixar de existir. Sabia que eu viraria humana depois disso. Sabia que Caio adormeceria no Não-espaço e assim permaneceria até o momento onde eu retornaria, onde nos tornaríamos um só novamente. Mas eu não queria ir para lá sem ele. Ele era a razão do meu Sacrifício. Dia após dia eu via uma dor muito grande e pesada em seu coração. Deveria ter acabado com isso há muito tempo, mas agora não tinha importância. Quando acordasse, ele não se lembraria de nada que outrora o trouxera dor.
Caio retirou a espada, agora com a lâmina limpa. Deixei minha cabeça cair sobre minhas mãos que estavam a minha frente. A dor estava diminuindo, mas eu me sentia mais pesada e triste. Diversas vontades me tomaram naquele momento. Chorar, gritar, abraçá-lo. Não sucumbi a nenhuma delas.
Meu sacrifício fora aceito, porém, ainda havia um preço a ser pago. Caio embainhou sua espada.
- Que seja feita a tua vontade. Veremos-nos em breve.
Estendeu sua mão sobre mim, arrancou-me as asas e com elas, meu espírito Mentire. Não houve dor. Desmaiei, e do seguinte, nada sei.”
Encontrei essa carta pela manhã. Atrás estavam impressas em letras caprichosamente desenhadas o nome Caio.
Lembro-me de um dia, acordar no meio do pátio da escola, sem sapatos e sem memória. Todos me disseram em seguida, que eu havia tropeçado e caído. Acontecera o mesmo com meu marido que faleceu há dois anos. Hoje, com 84 anos, não sei o que aconteceu comigo até meus 15, só sei que desde então, vivo com uma sensação de eterna espera.
Não sei se o que está escrito nessa carta recebida é verdade, porém sinto que minha hora chegou.
Minhas costas e meu coração doem. Hoje reencontrarei meu marido. Hoje reencontrarei Caio. E espero que eles me façam lembrar da minha história. A minha verdadeira história.
* Verita, Mentire – Quando um Anjo decide ir para o espaço físico, ele se “divide” em Verita e Mentire. O Anjo Mentire viverá entre os homens, e o Anjo Verita, guardará seu espírito. Automaticamente o Mentire se torna submisso ao seu Verita, mesmo que um precise do outro para existir. Isso porque todas as decisões que ele resolver tomar, que envolvam seu espírito, só poderão ser concretizadas com a presença e liberação dos seus dons, que por sua vez, só acontecem com a permissão do seu Verita. Um Mentire sempre pode chamar seu Verita quando necessário. Geralmente são de sexos opostos, pois em espíritos, precisam se completar. Um Mentire não pode olhar nos olhos do seu Verita enquanto estiver no espaço físico, pois se eles mantiverem contato visual, se fundem novamente e retornam ao Não-espaço. (nota encontrada na carta)