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16
fev
Postado por Paulinha

Ela estava tomando banho. Era uma das partes mais divertidas do seu dia. Ali podia pensar, viajar em seus sonhos, afinal, ninguém iria entrar ali. Era o seu refúgio.

Seus pais viviam reclamando que ela demorava muito no banho e ameaçavam começar a cobrar a conta de energia. Ela nem escutava.

Ali, podia fingir ser qualquer coisa, qualquer pessoa. Podia conversar com as paredes, imaginar estar rodeada de celebridades, ser alguém muito importante, talvez até presidente! Mas tinha que falar baixo, pois seus pais por muitas vezes conseguiam ouvir suas conversas, e caçoavam dela por isso.

Imaginava ser alta, magra, bonita, morena, de olhos claros… Imaginava ter muito dinheiro, poder viajar pelo mundo, conhecer muitas pessoas diferentes. E imaginava namorar alguém legal, de preferência um ator ou cantor. E por muitas vezes chorava, pois não era nada disso. Era baixinha, gordinha e seus olhos eram castanhos. Não tinha dinheiro, só o que seus pais lhe davam de mesada, o que não dava nem para comprar uma calça.

Ás vezes chorava muito, e desejava com todas as forças que tudo aquilo com que ela sonhava se tornasse realidade, como em um passe de mágica. E se desesperava quando abria os olhos e via que nada acontecia. Mas foi diferente desta vez.

Quando ela abriu os olhos, o que viu não foi a parede do banheiro. Foi alguém, ou algo, que talvez muitos de nós, os que acreditam é claro, não desejariam encontrar jamais.

- Boa noite, moça. – disse a coisa com uma voz rouca, que parecia fazer eco dentro de si mesmo.

Ela não conseguiu responder. Sua respiração se tornou ofegante, os olhos se arregalaram, a boca se escancarou. Mas nada saia dela.

- Não precisa se assustar, não vim lhe fazer mal, apesar do que falam de mim por aí, não isso tudo não, sabe.

Mais uma vez ela não conseguiu dizer nada. Mas pelo menos conseguiu fechar um pouco a própria boca.

- Então, tenho ouvido suas conversas diárias com a parede do banheiro. Ouvi também seus choros, criança. Sabe, se eu fosse um qualquer, diria pra você aceitar o que você é e talz. Mas né, não sou um qualquer, como você deve saber.

Neste momento ela conseguiu balançar a cabeça em afirmativo, pois sabia muito bem o que era aquela criatura, o padre já lhe alertara sobre isso desde muito nova.

- E como eu meio que cansei de assistir você chorar, pensei: porque não realizar estes sonhos todos? Eu posso fazer isso. – disse a coisa, balançando os ombros.

- Mas como nada vez de graça – nem do branquinho lá – é claro que quero algo em troca.

- Minha alma? – apesar de ter conseguido recuperar o fôlego para dizer esta pergunta, os olhos ainda estavam arregalados.

- É. Simples e direto, sem complicações, sem provações e essas baboseiras todas. Te dou três desejos e você me dá a alma. Simples assim.

- E o que acontece quando eu morrer?

- Você sabe o que vai acontecer.

Por um momento, a reação automática que quase saiu foi a de recusar a oferta. Já havia sido doutrinada a isso na igreja. Mas pensou de novo.

- Se você recusar, criança, não me verá mais. Pense bem, é a sua grande chance.

Então ela considerou realmente a oferta. Era jovem e infeliz. Com três desejos, podia se tornar rica e linda. Podia viajar o mundo. Podia conhecer muitas pessoas. Podia arranjar um namorado. Podia ser feliz, finalmente.

- Como é lá? – perguntou, na esperança de que não fosse tão ruim.

- Não posso lhe responder isso. É contra as regras, não minhas é claro, que os vivos saibam do lado de lá. O que eu acho muito chato, sabe.

Então ela ponderou. Será mesmo tudo isso que falam todo domingo? Será que não é suportável? E então ela pensou em tudo que poderia ser. Tudo o que sempre sonhou se realizar assim, em uma passe de mágica. Por fim, concluiu: foda-se.

- Meu primeiro desejo é ser rica, muito rica.

- E como você quer ser rica? Sabe como é, tem que ser de acordo com a regras daqui. Como você explicaria milhões aparecendo na sua conta bancária assim, do nada?

- Tá, então quero saber os números que vão cair na megasena de sábado.

- OK, feito. Estão anotados na sua agenda, em cima da sua escrivaninha.

- Meu segundo desejo é ser linda, muito linda. Quero ter olhos azuis, lábios carnudos, alt…

- Péra, péra, péra. É muita coisa pra um desejo só. Sabe, cada coisa aí que você disse tem que usar um desejo. Você está trapaceando.

- Hmm… Então posso usar um desejo para pedir desejos extras?

- Hehehe – a coisa deu uma risadinha maliciosa – pode sim, mas isso irá lhe custar cinco anos da sua vida.

- Bom, e quando eu vou morrer?

- Também não posso lhe responder isso. E não adianta usar um desejo para prolongar a sua vida. Quem dita essas regras é osso duro, cê sabe.

- Então, vou usar um desejo para ter uma boa saúde e nunca ter doenças.

- Mas ainda restam os acidentes.

- É só eu tomar cuidado. Então vejamos: assumindo que posso viver até os 90 anos, se eu tiver uma saúde boa, acredito que posso sacrificar 30 anos, para viver até os 60. 90 anos é muito. Isso me rende 6 desejos extras.

- Se você diz… – disse a coisa, sorrindo.

- Muito bem, é isso. Meu segundo desejo é nunca ter nenhuma doença, nunca.

- Feito.

- Meu terceiro desejo é medir 1,75.

- OK.

E neste momento ela esticou. Viu o chão se afastar um pouco. Vendo que surtiu efeito imeditato, começou a usar os desejos extras. Boca, nariz, cabelos, barriga, dentes, braços. Gastou os seis desejos em pouco tempo.

- Então, mais alguma coisa?

- Não, acho que está bom assim – disse ela olhando-se no vidro do box, admirando seus cabelos novos, boca e tudo o mais.

- Que assim seja. Nos vemos em breve. – disse isso e foi embora.

Ela ficou ali, se olhando no vidro do box, tão feliz que não podia acreditar. Depois de alguns minutos decidiu sair do banheiro para se admirar no espelho do seu quarto, que era de corpo inteiro. Porém, quando ela abriu a porta do box e pisou no azulejo do lado de fora, este estava molhado e ela escorregou. A cabeça bateu na beirada da privada, quebrando seu pescoço, causando a sua morte. Morreu linda e rica, porém.

26
out
Postado por Paulinha

Caminhando e pensando ele viu que os dias estavam ruins, uma sensação que perturbava seus pensamentos, tudo estava embaralhado. No fim do dia tudo foi explicado, mas nada foi entendido.

Amanheceu, olheiras e nem um sinal de sono, tudo havia mudado, mas ele ainda não tinha percebido. A rotina era a mesma da casa pro trabalho e do trabalho…bom, agora tudo começava novamente, mais explicações viriam e mais duvidas iriam surgir. Passaram umas semanas e o sentimento queria virar ódio mas a força era maior, a esperança ainda vivia.

Semanas, semanas, semanas, dias… bebidas, comida engordurada, a barba e o cabelo cresciam, tudo largado e nada organizado. O inferno veio até ele, largado em prantos em sua cama, não tinha para quem correr, estava sozinho.

Passou o mês e as coisas estavam mudando, sem bebidas, apenas livros e músicas. Na praça, arvores e pássaros, lembranças viriam e a dor tentava voltar, mas o tempo havia passado e os sentimentos também. Alguns. As folhas caiam e o vento era forte. O sorriso voltou em seu rosto e a vida fazia sentido novamente.

Conto enviado por Marcelo

21
jan
Postado por Paulinha

Estava fazendo um dia bonito naquela quarta-feira. Sem nuvens, com uma brisa refrescante, dando uma sensação de primavera, mesmo eles estando no meio do inverno.

Realmente era um dia agradável, porém não para ele. Cris estava triste, havia brigado com Natália. Caminhou até a faculdade olhando para o chão, pensando que seu dia seria uma merda.

Não foi. Durante a primeira aula seu colega chegou. O cara que tinha o mesmo nome que ele SEMPRE chagava atrasado. E SEMPRE tinha uma desculpa maluca que fazia Cris rir até doer os cantos da boca.

- Meu cachorro acordou mal-humorado e rasgou toda a roupa que eu tinha separado para usar hoje. Tive que pegar uma suja no cesto…

E após seu colega chegar e lhe contar a história da vez, Cris sorriu pela primeira vez no dia. Colocaram o assunto em dia e, depois de quarenta minutos, resolveram assistir a aula. No intervalo encontraram o Fulano. Sim, ele tinha nome, mas Cris e Cris odiavam-no tanto que achavam que o cara nem merecia ser chamado por um nome.

- Ooooooolha o casalzinho dividindo o lanche novamente! Que cuti cuti! E aí Cris², vão pegar um cineminha hoje ou vão direto pro motel?

Os dois Cris somente davam uma risadinha de escárnio e voltavam ao que estavam fazendo antes. Tentavam não demonstrar, mas odiavam o Fulano mais que qualquer coisa.

- Queria ser invisível para por o pé na frente dele… – disse o Cris que brigou com a Natália no dia anterior.

- Queria ser o Xavier para EXPLODIR a cabeça dele!!! – disse o Cris que tinha um cachorro com TPM e um óculos remendado com esparadrapo.

Após as aulas, os Cris foram cada um para o seu respectivo emprego. Cris número um para a padaria e Cris maluco para a Sex Shop (ele adorava o emprego!). Durante a tarde, Cris atendeu várias velhinhas, que passavam diariamente para comprar pães. – Os pães de vocês são os melhores! – diziam as senhoras sorridentes que passavam por lá todas as tardes, e que faziam Cris ter a sensação de trabalho bem feito.

À noite Cris voltou para casa (o que brigou com Natália, não o do cachorro), jantou com seus pais, conversou um pouco com eles e foi dormir.

Quando pousou a cabeça no travesseiro fez uma retrospectiva de seu dia. Havia acordado triste. Durante a aula se alegrou – não se esquecera de Natália, apenas focara em outros pensamentos. À tarde sentiu-se satisfeito e à noite matou a saudade dos pais, que estavam fora fazia um mês. E isso fez Cris se sentir confuso. Experimentara vários sentimentos durante o dia, teve várias opiniões em diferentes situações, com diferentes pessoas. As senhoras dos pãezinhos acharam que ele estava feliz. Cris, seu amigo, viu que ele estava triste e que foi trabalhar a tarde mais alegre. Já Natália achava que Cris estava chateado.

- Várias opiniões sobre uma mesma pessoa. – pensou. – Várias situações, diferentes sentimentos. Seria eu o mesmo que Natália e Cris conhecem? Ou o mesmo que as senhoras e meus pais viram hoje?

Não soube responder. Mas tivera a sensação de que dentro de si viviam mais de uma pessoa, e que nunca se dera conta disso.