Sempre acordo no mesmo horário. Interessante, pois não temos despertador. Com exceção dos dias de outono, onde acordo um pouco mais cedo. Talvez por ser minha estação do ano predileta e assim, meu corpo desejar aproveitar mais os dias.
Era um sábado de outono. Abrir os olhos depois de uma agradável noite, onde nem mosquitos nem sonhos ousam atrapalhar seu sono, é sempre um desafio, e a fome é uma boa motivação. O ar gelado do final de outono que senti em meus pés descobertos indicava que Henrique não fechara as janelas do quarto. O agradeci por isso com um beijo em seu rosto. Observei-o por instantes a dormir, sem ter coragem de acordá-lo. Parecia estar profundamente confortável e apenas se mexeu tranqüilamente, sem despertar, quando meus lábios tocaram sua pele pálida. Jamais o vira tão bonito. Seu cabelo negro levemente suado e totalmente bagunçado, caído sobre seus olhos, o fez parecer mais jovem, fazendo-me lembrar de dias passados, não tão bons quanto os atuais, e isso me trouxe felicidade. Éramos casados há apenas dois anos e ainda éramos jovens.
Levantei-me e me vesti com meu roupão cinza que ganhara de Henrique no Natal passado. Fiquei mais alguns segundos observando meu marido a dormir quando fui interrompida por meu estomago me lembrando que estava faminto. Após fechar as janelas e a porta do quarto, segui à cozinha. O dia estava maravilhoso e necessitava de um sabor igualmente satisfatório: café. Bem forte, como nós dois gostamos. Somos legítimos apreciadores de café. E não é apenas um hobby, é o nosso trabalho. Trabalhamos como provadores de café para selos de qualidade. Mas o que gostamos mesmo de fazer é os “bicos” em que frequentemente somos convidados a participar. Jurados de concursos de café, provadores de novas receitas em cafeterias e alguns outros igualmente deliciosos. Sempre ganhamos pacotes e mais pacotes de café, da melhor qualidade, de diferentes marcas, de variados lugares. A dispensa onde ele fica é nosso paraíso secreto. Fui até lá e peguei uma caixa ainda fechada de um café desconhecido que ganhamos de presente do editor chefe de uma revista local. Café Extra-forte Sentinela. Nunca provara essa marca, mas o homem que nos ofertou-o nos garantiu ser de ótima qualidade. Era o que sua origem também confirmava. O lugar de onde viera era famoso por seu excelente café. Resolvi prová-lo. Enquanto fazia o café, soltei Spock (o nome fora idéia de Henrique, mas eu também gostava de Star Trek), nosso filhote de Border Collie, do seu quartinho. Fez festa comigo depois saiu para o jardim. Depois de pronto o café, peguei minha xícara de cerâmica lascada e fui atrás dele. Spock adorava as folhas amareladas que caiam no Outono. Eu também. Enquanto ele brincava em cima de montes delas, eu bebi o primeiro gole desse desconhecido café. A sensação foi indescritivelmente maravilhosa. Era o melhor café que já provara na vida! Tinha um aroma digno de perfumaria e o sabor, ah o sabor! Se você fechasse os olhos enquanto bebia um gole, viajaria! Isso aconteceu comigo. Nem percebi Henrique se aproximando também com uma xícara em mãos.
- Bom dia! – me beijou. – E aí, campeão! Já conseguiu desintegrar todas as folhas? – Spock retribuiu o sarcasmo com alegria, brincando com Henrique, depois voltou à sua atividade anterior que parecia ser divertidíssima.
Ele deu o primeiro gole no novo café, demorou alguns segundos, abriu os olhos e me olhou surpreso.
- Fabuloso, eu sei. Como vivemos sem isso até agora? – disse eu.
- E pensar que estávamos com medo de prová-lo! Estava na nossa dispensa até agora!
Sentamos no primeiro degrau que subia para a cozinha e ficamos ali, abraçados um ao outro com nossos cafés. Olhando Spock e suas folhas. Olhando o céu azul e suas nuvens. Sentindo o frio e sua leve brisa matinal. Tudo estava em perfeita sincronia com sua simplicidade. Quase como uma canção. Esse, com certeza, fora o melhor dia de nossos melhores momentos.











