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06
mar
Postado por Ana

Sempre acordo no mesmo horário. Interessante, pois não temos despertador. Com exceção dos dias de outono, onde acordo um pouco mais cedo. Talvez por ser minha estação do ano predileta e assim, meu corpo desejar aproveitar mais os dias.

Era um sábado de outono. Abrir os olhos depois de uma agradável noite, onde nem mosquitos nem sonhos ousam atrapalhar seu sono, é sempre um desafio, e a fome é uma boa motivação. O ar gelado do final de outono que senti em meus pés descobertos indicava que Henrique não fechara as janelas do quarto. O agradeci por isso com um beijo em seu rosto. Observei-o por instantes a dormir, sem ter coragem de acordá-lo. Parecia estar profundamente confortável e apenas se mexeu tranqüilamente, sem despertar, quando meus lábios tocaram sua pele pálida.  Jamais o vira tão bonito. Seu cabelo negro levemente suado e totalmente bagunçado, caído sobre seus olhos, o fez parecer mais jovem, fazendo-me lembrar de dias passados, não tão bons quanto os atuais, e isso me trouxe felicidade. Éramos casados há apenas dois anos e ainda éramos jovens.

Levantei-me e me vesti com meu roupão cinza que ganhara de Henrique no Natal passado. Fiquei mais alguns segundos observando meu marido a dormir quando fui interrompida por meu estomago me lembrando que estava faminto. Após fechar as janelas e a porta do quarto, segui à cozinha. O dia estava maravilhoso e necessitava de um sabor igualmente satisfatório: café. Bem forte, como nós dois gostamos. Somos legítimos apreciadores de café. E não é apenas um hobby, é o nosso trabalho. Trabalhamos como provadores de café para selos de qualidade. Mas o que gostamos mesmo de fazer é os “bicos” em que frequentemente somos convidados a participar. Jurados de concursos de café, provadores de novas receitas em cafeterias e alguns outros igualmente deliciosos. Sempre ganhamos pacotes e mais pacotes de café, da melhor qualidade, de diferentes marcas, de variados lugares. A dispensa onde ele fica é nosso paraíso secreto. Fui até lá e peguei uma caixa ainda fechada de um café desconhecido que ganhamos de presente do editor chefe de uma revista local. Café Extra-forte Sentinela. Nunca provara essa marca, mas o homem que nos ofertou-o nos garantiu ser de ótima qualidade. Era o que sua origem também confirmava. O lugar de onde viera era famoso por seu excelente café. Resolvi prová-lo. Enquanto fazia o café, soltei Spock (o nome fora idéia de Henrique, mas eu também gostava de Star Trek), nosso filhote de Border Collie, do seu quartinho. Fez festa comigo depois saiu para o jardim. Depois de pronto o café, peguei minha xícara de cerâmica lascada e fui atrás dele. Spock adorava as folhas amareladas que caiam no Outono. Eu também. Enquanto ele brincava em cima de montes delas, eu bebi o primeiro gole desse desconhecido café.  A sensação foi indescritivelmente maravilhosa. Era o melhor café que já provara na vida! Tinha um aroma digno de perfumaria e o sabor, ah o sabor! Se você fechasse os olhos enquanto bebia um gole, viajaria! Isso aconteceu comigo. Nem percebi Henrique se aproximando também com uma xícara em mãos.

- Bom dia! – me beijou.  – E aí, campeão! Já conseguiu desintegrar todas as folhas? – Spock retribuiu o sarcasmo com alegria, brincando com Henrique, depois voltou à sua atividade anterior que parecia ser divertidíssima.

Ele deu o primeiro gole no novo café, demorou alguns segundos, abriu os olhos e me olhou surpreso.

- Fabuloso, eu sei. Como vivemos sem isso até agora? – disse eu.

- E pensar que estávamos com medo de prová-lo! Estava na nossa dispensa até agora!

Sentamos no primeiro degrau que subia para a cozinha e ficamos ali, abraçados um ao outro com nossos cafés. Olhando Spock e suas folhas. Olhando o céu azul e suas nuvens. Sentindo o frio e sua leve brisa matinal. Tudo estava em perfeita sincronia com sua simplicidade. Quase como uma canção. Esse, com certeza, fora o melhor dia de nossos melhores momentos.