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09
ago
Postado por Ana

Ele era diferente. Não por sua aparência, pois o que ele via nos espelhos velhos do Depósito, para ele, era extremamente normal. O que o diferenciava era sua função na sociedade.

Antes de ele aparecer, o mundo tinha um problema grave quanto à reciclagem do lixo. As lembranças dos antigos proprietários se revoltavam quando os objetos em que elas estavam precisavam ser derretidas para formarem outros produtos úteis. Invadiam objetos já reciclados, tornando-os velhos novamente. Grandes empresas que forneciam esse serviço faliram nos primeiros meses de produção. Alegaram falta de matéria prima. O que não era verdade.

Foi exatamente nessa época que os governantes do mundo (que para esclarecimento, não era tão grande assim) decidiram criar um grande depósito para jogar todo o lixo que não podia ser reciclado. Este fora criado e batizado de Depósito.

Passados dois meses, por se localizar no subúrbio do mundo, os governantes não se importavam mais com ele, e as pessoas mais ricas o haviam esquecido. Apenas um caminhão, conduzido por um bode, ia semanalmente lá, descarregar os lixos.

Numa certa semana, o bode não retornou. Não, o Monstro não o convidou para tomar um café, muito menos para jogar xadrez. Acontece que naquela semana, fora mandado um bode estagiário para fazer o serviço. Quando chegou ao Depósito, ficou curioso e resolveu descer do caminhão e ir olhar as coisas por lá. Má idéia. Quando ele entrou em contato com todas aquelas lembranças naqueles objetos velhos e esquecidos, surtou, perdeu a memória e mutou. Não se parecia mais com nada vivo ou imaginável no mundo, mas definitivamente não era mais um bode.

Passaram-se alguns dias, e ele se viu no dever de arrumar toda aquela bagunça do Depósito. Se estou aqui é porque meu dever está aqui. Achou alguns instrumentos e começou a desmontar, montar e remontar.  A reciclagem novamente era uma realidade naquele mundo, graças á ele.

Nenhuma memória esquecida se rebelou. Foram elas que transformaram aquele bode, na criatura que agora, ajudava-as a permanecerem em paz. Se era doloroso serem retiradas de seus objetos para esses serem derretidos e reaproveitados, era pior ainda ficarem jogadas e esquecidas sob o frio e a chuva. Então criaram um ser que, antes de reciclar os objetos, pudesse absorver-las, fazendo-as viverem permanentemente dentro dele.

Agora o ornitorrinco de cada semana descarregava lixo e carregava materiais reciclados.

É, ornitorrinco porque todos os bodes ficaram com medo de voltar lá.  Aliás, foram desses bodes medrosos que começou a lenda do Monstro.

(Lembra do primeiro né?!)

07
ago
Postado por Paulinha

Sempre fui muito solitário. Aos 10 anos fiquei órfão. Fui morar com meus tios, que nunca se empenharam em me criar como filho deles. Já tinham os seus.

Sempre fui independente. Na verdade fui obrigado a sê-lo. Mas não reclamo, me tornou o que sou hoje, homem maduro e equilibrado.

Porém isso não impediu que eu me sentisse só. A solidão sempre caminhou ao meu lado, mesmo eu estando dentre multidões.

Fantasiava em ter muitos amigos, uma família grande. Porém o máximo que consegui foi um cachorro.

Dentre as minhas fantasias estava a de ter uma namorada. E minha solidão é tanta que chegava a imaginá-la em minha cama, na mesa de jantar, dentro do banheiro tomando banho comigo…

Imaginava ela aparecendo ali, do nada, cheia de amor pra dar, sem me julgar, sem querer saber meu nome e sobrenome ou onde trabalho. Só queria que ela estivesse ali.

E um dia ela apareceu. Estava tomando banho e imaginando-a ali em minha frente. Desejei isso com tanto fervor que algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto sem que eu percebesse, e se misturaram com a espuma do xampoo.

Abri os olhos e ela estava ali, linda, morena, nua, olhando para mim e sorrindo.

A princípio pensei que fosse apenas o resto do meu fervoroso desejo que ela aparecesse. Mas quando ela disse meu nome eu acreditei no que via.

Não fiz perguntas, não me assustei, nem quis saber como ela chegou ali. Apenas a abracei e chorei. Ela retribuiu ao abraço. Depois de algum tempo ela se afastou e começou a falar. Disse que ficaria comigo por uma semana e neste período realizaria todas as minhas fantasias, meus sonhos mais profundos, seria minha mulher. Também teria muitos amigos e poderia conhecer qualquer lugar do mundo. Mas somente por uma semana.

Obviamente aceitei. Nem que fosse por apenas um curto período gostaria de me sentir amado.

- Mas há uma condição. – disse ela. – Você poderá realizar todas as suas fantasias durante sete dias, mas após este período você será preso numa cela, sozinho, e não verá mais ninguém pelo resto da sua vida.

Fiquei paralisado por alguns instantes. Quase abri a boca para dizer que concordava, mas ponderei. Valia a pena perder uma vida por alguns instantes de felicidade? Será que a lembrança destes momentos felizes me aquecerão nos momentos tristes que se seguirão? Será que um alcoólatra pensa na ressaca antes de tornar a beber?

Ela me deu tempo para pensar. Um dia. Em um dia irei decidir o resto de minha vida.