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02
out
Postado por Paulinha

Alex estava em seu quarto sem ter o que fazer. Então decidiu inventar o que fazer. Desenhou uma porta na parede. Era apenas um retângulo, era verdade, mas para ele era uma porta. Escreveu com giz escolar para que pudesse apagar depois.

Depois que desenhou a porta, desenhou uma maçaneta. Fez somente um círculo, era verdade, mas para ele era uma maçaneta. E ela funcionava como deviam funcionar as maçanetas: abrindo portas. Ela abriu a porta que Alex havia acabado de desenhar.

Uma vez a porta aberta, não havia mais como fechá-la. Ela ficou lá, escancarada, mostrando uma escuridão sem fim. Alex não entendeu porque estava tudo tão escuro, e também porque não conseguia passar para o outro lado.

Então teve uma idéia: deve estar escuro porque eu não desenhei uma lâmpada! Mas como desenhar uma lâmpada no vazio? Então resolveu da forma mais fácil que encontrou: desenhou uma lanterna ao lado da porta. Era somente um retângulo com um círculo na ponta, era verdade, mas para ele era uma lanterna. Amarela e com uma luz forte, que nem aquela que seu pai costuma levar para a pescaria.

Alex pegou a lanterna que acabara de desenhar e a ligou. A luz iluminou todo o seu quarto. E então iluminou aquilo para o qual a lanterna havia sido criada: dentro da porta.

A princípio ele não viu nada. E continuou não vendo nada. Só conseguia ver um círculo de luz, que era a luz da lanterna. Então se lembrou: não consigo ver nada porque não desenhei nada! E então se abaixou e fez um risco reto, um pouco acima da entrada da porta. Alex deu um passo e conseguiu ficar em cima do risco. Criara o chão!

Com a lanterna foi iluminando seus pés e fazendo riscos, para que pudesse andar mais para dentro daquele mundo escuro. Depois que cansou de somente fazer o chão, resolveu fazer paredes. Mas peraí!, pensou. Porque paredes? Porque não árvores? Com casas em cima, como aquela que o Pedro tem atrás da casa dele? E assim Alex desenhou uma árvore. Era apenas duas linhas para cima e riscos desordenados no topo, era verdade, mas para ele era uma árvore. E desenhou um quadrado grande no topo da árvore. E aquela era a sua casinha na árvore.

Brincou por um tempo lá até se dar conta de que tudo era muito silencioso. E quis inventar algum barulho. Mas como desenhar sons? Desenhou o que ele achava que eram notas musicais, mas nada aconteceu. Foi quando ouviu um barulho. Um barulho feio, de ronco, parecido com o da sua mãe.

De onde veio esse som, se eu não o inventei? pensou assustado. E o barulho foi aumentando. Quanto mais queria que parasse mais o barulho parecia ficar mais perto. E pensou, com as mãos tapando as orelhas: queria fones de ouvido de piloto de avião! E um fone de ouvido de piloto de avião apareceu no chão, perto dos seus pés. Foi quando percebeu que não precisava desenhar para as coisas aparecerem, bastava imaginar. E imaginou um céu azul, muitas árvores, balanços, gangorras e mais uma infinidade de coisas que a imaginação de um menino de sete anos podia imaginar.

Quando se cansou de imaginar coisas, parou. E ouviu o barulho novamente. Então ficou bravo e gritou: saia daqui, esse lugar é meu! E o barulho parou. Quase acreditou que ele realmente tinha ido embora quando o barulho recomeçou, e dessa vez tinha forma.

Era um bicho gigante e fedido, mas sem contornos. Na verdade era só um borrão. Porém esse borrão estava correndo e berrando na direção de Alex.

Assim que Alex viu o borrão se deu conta de quem era: O Bicho Papão. Nunca tinha pensado muito nele, Pedro e João diziam que ele não existia. Mas agora parecia bem real e estava querendo pegá-lo.

Então Alex pensou: vou colocar uma parede na frente dele! E apareceu uma parede, mas ela era muito pequena e o Bicho passou por cima.

Vou colocar um buraco então! E o Bicho pulou por cima do buraco. E Alex ficou inventando um monte de coisa para parar o Bicho, mas tudo era pequeno demais para pará-lo. E nesta altura o Bicho já estava bem perto dele.

Sua mãe disse-lhe uma vez que o Bicho Papão morava em baixo da sua cama. Sempre olhou em baixo da cama e nunca viu nada. Mas agora via um Bicho Papão sem a cama. E sem saber o que fazer, começou a chorar. Chorou tanto que as suas lágrimas formaram um rio, e apagou tudo o que ele tinha inventado. Levou embora as árvores, o chão, os balanços e até o céu. Mas o Bicho Papão ainda estava lá.

Então começou a correr. Correu de volta para a porta por onde tinha entrado, mas não conseguiu porque suas lágrimas tinham levado o chão que ele tinha desenhado. E ele caiu num buraco.

Ficou caindo um bom tempo até ouvir a voz de sua mãe. Ela dizia: Alex, você está atrasado!!!! Abra os olhos, pelo amor de deus! Foi quando ele notou que realmente estava de olhos fechados e resolveu abri-los. E o que viu foi seu quarto, sua mãe com as mãos na cintura e um punhado de giz escolar ao lado da parede.

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09
ago
Postado por Ana

Ele era diferente. Não por sua aparência, pois o que ele via nos espelhos velhos do Depósito, para ele, era extremamente normal. O que o diferenciava era sua função na sociedade.

Antes de ele aparecer, o mundo tinha um problema grave quanto à reciclagem do lixo. As lembranças dos antigos proprietários se revoltavam quando os objetos em que elas estavam precisavam ser derretidas para formarem outros produtos úteis. Invadiam objetos já reciclados, tornando-os velhos novamente. Grandes empresas que forneciam esse serviço faliram nos primeiros meses de produção. Alegaram falta de matéria prima. O que não era verdade.

Foi exatamente nessa época que os governantes do mundo (que para esclarecimento, não era tão grande assim) decidiram criar um grande depósito para jogar todo o lixo que não podia ser reciclado. Este fora criado e batizado de Depósito.

Passados dois meses, por se localizar no subúrbio do mundo, os governantes não se importavam mais com ele, e as pessoas mais ricas o haviam esquecido. Apenas um caminhão, conduzido por um bode, ia semanalmente lá, descarregar os lixos.

Numa certa semana, o bode não retornou. Não, o Monstro não o convidou para tomar um café, muito menos para jogar xadrez. Acontece que naquela semana, fora mandado um bode estagiário para fazer o serviço. Quando chegou ao Depósito, ficou curioso e resolveu descer do caminhão e ir olhar as coisas por lá. Má idéia. Quando ele entrou em contato com todas aquelas lembranças naqueles objetos velhos e esquecidos, surtou, perdeu a memória e mutou. Não se parecia mais com nada vivo ou imaginável no mundo, mas definitivamente não era mais um bode.

Passaram-se alguns dias, e ele se viu no dever de arrumar toda aquela bagunça do Depósito. Se estou aqui é porque meu dever está aqui. Achou alguns instrumentos e começou a desmontar, montar e remontar.  A reciclagem novamente era uma realidade naquele mundo, graças á ele.

Nenhuma memória esquecida se rebelou. Foram elas que transformaram aquele bode, na criatura que agora, ajudava-as a permanecerem em paz. Se era doloroso serem retiradas de seus objetos para esses serem derretidos e reaproveitados, era pior ainda ficarem jogadas e esquecidas sob o frio e a chuva. Então criaram um ser que, antes de reciclar os objetos, pudesse absorver-las, fazendo-as viverem permanentemente dentro dele.

Agora o ornitorrinco de cada semana descarregava lixo e carregava materiais reciclados.

É, ornitorrinco porque todos os bodes ficaram com medo de voltar lá.  Aliás, foram desses bodes medrosos que começou a lenda do Monstro.

(Lembra do primeiro né?!)