23
out
Postado por Ana

O Verão dava seu adeus àquele ano, dentre alguns dias mudaria a estação, e como presente de despedida providenciou uma tarde de domingo ensolarada, com muitas nuvens e uma brisa agradável. Um ótimo dia para caminhar no parque.

Há tempos não se importava com muitas coisas que outrora lhe tiravam o sono. Sabia que havia mudado, tinha perdido sua mente limitada, tinha libertado seus olhos, começara a entender coisas que, antes, não faziam sentido; começado a enxergar coisas que, antes, não existiam para ele. Consequentemente tinha ficado maluco; por um bom tempo.

Por que mudara de uma hora para outra? Como, simplesmente, parara de se importar? Será que havia voltado a ser mais um acomodado em uma eterna cegueira voluntária? Estas perguntas surgiam como nuvens em sua mente enquanto caminhava pelo parque.

Resolveu sentar em um dos bancos de madeira, em baixo de um grande bordo já com as folhas amareladas; resolveu colocar os pensamentos em ordem. Rapidamente percebeu que não conseguiria se concentrar em tentar resolver estes questionamentos assim, de uma hora para outra. Tirou os sapatos e colocou os pés na grama verde. Sentiu-a macia.  Uma leve rajada de vento o fez se arrepiar. Duas folhas amareladas caíram em seu colo e uma outra ao lado dos seus pés.  Fechou os olhos. Ouvia pássaros e a água correndo pelo pequeno riacho que havia no centro do parque. Sentia um doce cheiro de baunilha. Gostava daquilo. Adorava cada um desses detalhes em particular, mas gostava principalmente da paz que elas traziam e do sorriso que, independentes, despertavam em seu rosto.

Não estava mais ali, não era mais um corpo material constituído de carbono sentado num banco de parque. Tampouco estava perdido, estava em cada pequena folha de grama; em cada molécula no flavor da baunilha; em cada nota cantada pelos pássaros; em cada gota d’água; em cada folha de bordo que caía, estava no vento. Se movendo, fazia parte de todos os lugares.

Neste momento entendeu. Entendeu porque havia parado de se importar. O motivo era simples. Quando passara a enxergar várias coisas invisíveis às outras pessoas, lutara para entendê-las. Procurara por respostas, raciocínios lógicos e opiniões diversas. Pôde apenas concluir que não se pode ter certeza de nada. Concluiu que ter opiniões formadas e inalteráveis é o verdadeiro principio da ignorância. A vida, de repente, lhe parecera um emaranhado de perguntas sem respostas. E nesse tempo, inconscientemente se apaixonara por ela, pois a entendeu.

Enquanto as outras pessoas passavam seus dias reclamando da vida por não acharem suas respostas e verdades e propósitos, ele entendia que o segredo estava em justamente não haver resposta alguma. Finalmente entendeu que depois disso, começara a viver da maneira mais simples que jamais vivera. A tranquilidade era sua companhia todos os dias.

Entendeu que não parara de se importar com tudo completamente, apenas passou a julgar as coisas que realmente valiam à pena alguma preocupação. Continuava enxergando aquelas nuances e não as ignorava, apenas as observava e se lamentava pelas pessoas que não as viam. As coisas estavam bem. Ele estava em paz. Estava finalmente vivendo.

Depois de entender tudo isso, resolveu ficar mais um pouco no parque, no mesmo lugar, no caso de mais alguma dúvida aparecer, uma vez que as perguntas nunca cessam.

“Quando você liberta seus olhos o prêmio é eterno.”

Categoria: Amor, Loucura
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