Arquivos de » março, 2010 «

31
mar
Postado por Paulinha

Acordei hoje e estava tudo escuro. Mais uma vez. Já fazem três meses que o dia não chega, que a noite não termina.

O tempo todo é escuro, sombras em todos os lugares para onde olho. As pessoas andam cabisbaixas, encolhidas, por causa do frio e pelo desânimo do escuro.

O Sol me faz falta. Sinto falta de acordar com a luz do amanhecer no rosto. De sentar na varanda e tomar café observando a luz do Sol refletir no orvalho da manhã. Agora não tenho ânimo nem de sair da cama.

Meus ossos doem, a cabeça pesa. Meus ombros parecem carregar o peso do mundo. Estou tão desanimado que não tenho vontade nem de ir trabalhar. Aliás, me pergunto: como pude aceitar um emprego em um lugar que as noites duram seis meses?

Sinto que estou enlouquecendo.

19
mar
Postado por Ana

- Quero comprar alguma coisa. Me dá tua opinião?

- Compre um liquidificador novo.

- Nós temos liquidificador!

- E ele tem 5 potencias e para de funcionar na 2ª.

- Bom! Ele ainda funciona na 1ª! Vou comprar uma TV nova.

- Nós temos TV!

- E ela tem uma mancha rosa muito estranha no meio da tela.

- Bom! Nós gostamos de rosa.  Compre um ar condicionado novo.

- Estamos no inverno!

- E é quando os preços de ar condicionados caem.

- Bom! E ele enferruja até o verão. Vou comprar uma cama nova.

- Você tem uma cama!

- Mas você já viu as novas camas box?

- Lindas! Mas venda um dos seus rins para pagar uma. Compre um cachorro.

- Cachorros cagam.

- Você também.

- Mas vai pra um lugar que não é a minha calçada. Você não está me ajudando.

- Desculpe, vou te dar uma ótima opinião agora!

- E qual é?

- Compre nitroglicerina e vá pro inferno.

- Espera…

(inspired by mom)

16
mar
Postado por Paulinha

Há um mês planejava isso. Comprara todas as ferramentas necessárias: aventais, plásticos, jornais, martelo, prego, serrote. Tudo o que seria necessário para não fazer sujeira. Só queria poder encontrá-la novamente… Mostrar a ela que não estava certo tratá-lo assim. Mostrar o que poderia fazer com as ferramentas certas.

Ela o ignorava havia um tempo. Haviam discutido por alguma coisa mínima que ele já nem lembrava mais o que era. Mas se lembrava muito bem do sentimento de raiva que ficou quando ela o insultou. Só o que ele queria era mostrar a ela seus talentos com o serrote e o martelo…

Preparou toda a sala: forrou o chão com jornal e nas paredes pendurou os plásticos em cordas de pendurar roupa. Vestiu o avental e montou sua mesa: serrote, martelo, pregos.

A campainha tocou. “É ela”, pensou. Respirou fundo e caminhou a passos largos em direção a porta. Ela estava com a mesma roupa de sempre: terninho preto básico, com a pasta executiva em baixo do braço.

- Não tenho muito tempo – disse ela passando rapidamente por ele porta adentro. – O que você quer me mostrar?

- Venha por aqui, por favor. – e fez um gesto em direção a sala no final do corredor. A sala que ele havia preparado, na qual seria definido o seu futuro.

- Ok, aqui estamos. E então?

Então ele pegou o serrote. Depois o martelo e pregos. Alternava entre um e outro, com extrema precisão, apesar do nervosismo. Não ouvia nada, o único som que ouvia era um zumbido. E ao longe, os protestos dela.

Após muita luta, ele terminou. Estava exausto. Muita pressão, muita ansiedade. Mas terminou. Secou a testa, que estava empapada de suor e olhou para o resultado do seu trabalho. Estava orgulhoso. Havia se livrado daquilo que estava lhe corroendo a alma durante um mês. Só tinha que limpar a sujeira.

- Está contratado! – após um longo silêncio, analisando o resultado, ela disse. Então pegou a sua pastinha de executivo e foi embora do mesmo jeito que entrou.