A luz da lanterna piscou, como se estivesse sem bateria. O ar ficou quente e estagnado. Pensou em voltar para o seu quarto, como se lá fosse o lugar mais seguro. Mas não conseguiu.
A luz da lanterna finalmente apagou. Ele deu um passo para trás, no susto. O silêncio da casa era tão profundo que até o seu batimento cardíaco parecia ser muito barulhento.
A princípio ele não entendeu o que estava acontecendo. Sentiu uma coisa gelada e gosmenta agarrar seu pé direito e puxá-lo para a frente, derrubando-o, em direção ao final do corredor, onde anteriormente havia aquela porta medonha.
Tentou gritar, mas não conseguiu. Até a própria voz havia lhe abandonado. A coisa puxava-o tão rápido e violentamente que ele não conseguiu encontrar um ponto de apoio.
Foi quando ele viu a porta novamente, porém desta vez estava totalmente aberta, revelando um outro corredor, e no final dele uma outra porta, de onde escapava uma luz vermelha e bruxuleante.
Quando atravessou a porta, não conseguiu ver nada. Estava tudo tão escuro, e a luz vermelha no final do corredor era muito fraca. A coisa ainda puxava-o pelo pé, e parecia estar ainda mais rápido. Só entendeu o motivo quando pôs a mão no chão e notou algo viscoso por todo o lugar. Tinha um cheiro de podre horrível, como nunca havia sentido antes, nem dos animais que morriam perto da sua antiga casa, e que ele tinha o estranho hábito de ir brincar com eles. Foi quando começou a ouvir.
O primeiro grito era um pedido de socorro, de uma mulher. Um grito desesperado, cheio de dor e agonia, que implorava pela morte, e não por sua libertação. O segundo era de um homem. Mas já era um grito cansado, sem palavras, quase um gemido. E a medida que a coisa arrastava-o em direção a porta com a luz vermelha, outros gritos se misturavam aos da mulher e do homem.
A esta altura ele já havia se entregado ao desespero. Tentava lutar, mas a coisa puxava a sua perna com tanta força que parecia que ia arrancá-la.
Finalmente chegou perto da porta o suficiente para a luz que escapava dela poder iluminar um pouco o corredor. E então entendeu o porque do cheiro de podre e a viscosidade do chão: todo o lugar estava tomado de sangue, já apodrecendo, e nos cantos, restos do que um dia foram pessoas. Dezenas delas.
Mas a luz também revelou outra coisa, talvez mais medonha do que a visão do corredor: seu raptor. Sua forma lembrava a de uma pessoa, mas aquilo deixada de ser humano havia muito tempo. A pele, toda queimada e com erupções, tinha uma aparência viscosa, em tons de verde. A postura era a de um macaco, e com uma imensa corcunda. Os braços eram desproporcionais. E a respiração era pesada, difícil, que mais parecia um ronco.
Atravessando esta última porta ele pôde ver de onde os gritos surgiam. Haviam centenas, milhares de pessoas amontoadas, desesperadas, dentro de uma imenso buraco. E haviam, para cada pessoa, dez criaturas. Essas criaturas desmembravam, violavam, se alimentavam das pessoas, divertindo-se. E às pessoas só restava gritar, como se assim a morte pudesse chegar mais rápido.
E foi neste abismo que a coisa jogou-o. Logo em seguida, várias criaturas, sedentas por carne nova, já arrancaram-lhe as roupas, os cabelos, os membros. Porém, a cada membro arrancado, cada órgão, eles apareciam novamente em seu corpo. E as criaturas arrancavam-os novamente. Isso se repetiria eternamente. Foi quando, em um lampejo, entendeu o porque de algumas pessoas não gritarem mais, e o porque do grito daquele homem parecer tão cansado.
O resto da sua sanidade desapareceu assim que seu raptor fechou a porta por onde havia entrado, e seu grito de agonia juntou-se aos milhares.
Ela havia escrito um texto e postado em seu blog. Romântico, cheio de amor e saudade. Mas o objeto de toda essa paixão não sabia disso. E ela estava disposta a nunca revelá-lo.
Até que ele entrou em seu blog. E o texto citava até o nome dele. Seu cabelo, seu perfume.
- Esse post é sobre mim? – perguntou ele, pegando-a de surpresa com a sua cara-de-pau.
- Nada a ver… Existem tantos Felipes no mundo com o cabelo igual ao seu…
- Mas eu não comentei nada do cabelo… Que aliás é muita coincidência.
- Exatamente, coincidência.
No outro dia, ela trocou o nome dele por Bruno. Também trocou a cor e o tamanho do cabelo, deixando de ser “ele” pra virar somente mais um dos seus personagens. Porém ainda era um texto sobre ele.