Marina estava diante de um espelho. Mas este espelho não trabalhava como todos os outros espelhos: não mostrava sua imagem, mesmo ela ficando quase colada nele.
Era um espelho redondo e grande, do tamanho de Marina. Ela havia ganhado-o de sua avó. Na época odiou o presente – Quem dá um espelho à uma criança? – e então a avó de Marina inventava mil histórias sobre o espelho para que a menina passasse a gostar dele. Não funcionou.
Por mais que Marina fizesse estripulias na frente dele, o espelho só mostrava o quarto vazio atrás dela. Tinha comprado um vestido novo e queria ver como ficou, mas o espelho era idiota demais pra fazer o seu próprio trabalho.
Quando ela estava quase desistindo, uma sombra apareceu diante do espelho. Tinha a forma de uma pessoa, da mesma altura de Marina. Mas a imagem não se movia. Estava estática, como uma estátua. Marina ficou tão assustada que deu um grito e começou a andar em direção à porta, mas ela estava trancada. Gritou pela mãe, pelo irmão, pelo pai, mas ninguém apareceu. A casa estava totalmente silenciosa.
Foi até a janela e tentou abri-la, mas também estava trancada. Bateu contra o vidro e gritou, mas ninguém ouviu. Olhou para o espelho novamente e percebeu que a figura não havia se movido, porém havia adquirido alguma cor. Chegou perto e percebeu que a figura era uma mulher e estava vestindo uma camisola branca. Porém ainda não era possível ver seu rosto.
Marina começou a chorar. De vez em quando gritava por socorro, batia na porta e na janela, sem sucesso. E tentou se lembrar do que havia acontecido antes de entrar no quarto, mas não conseguiu. Lembrava apenas de sua mãe dizendo para ela ir buscar sua mochila para ir para a escola pois estava atrasada. – Mas isso aconteceu quando eu era criança! – pensou ela. E olhou para suas mãos e pés – Agora eu já sou uma adulta!
Ela se sentou no chão e encostou a cabeça na parede, tentando lembrar-se de outras coisas de sua vida. Como era difícil! Precisou fazer bastante esforço para lembrar-se de coisas da sua infância e adolescência. Lembrar dos pais, do irmão… Foi quando se lembrou.
Lembrou do acidente, do carro, da dor. Lembrou de tudo! Ela estava no carro com ele, ela dirigia. Era noite e estava chovendo muito quando apareceu na frente deles um carro. Marina tentou desviar, mas não conseguiu salvar totalmente o carro. Os dois veículos bateram de frente, matando seu irmão na hora. O outro motorista estava bêbado e morreu na hora também. Somente ela havia sobrevivido.
Juntamente com estas lembranças veio a dor. A dor da culpa, dor física, dor da perda. Como poderia ter se esquecido disto? Como havia esquecido do dia em que matara seu irmão? Seu irmão querido?
Neste momento ela se levantou e foi até o espelho. A figura nele havia se tornado reconhecível: era ela própria. Estava mais velha do que se lembrava, com o cabelo desarrumado e com olheiras horríveis. Marina chegou mais perto, observando a imagem – Não poder ser eu! Essa pessoa é muito velha! – pensou. Foi quando percebeu alguém no fundo do espelho, atrás da imagem. Percebeu que não era somente uma pessoa, mas duas. Dois homens corriam em direção à ela. Marina se assustou e começou a andar para trás. Olhou em sua volta porém seu quarto estava mudando. As paredes foram trocando de cor, assumindo uma cor verde claro. Os móveis todos sumiram. A janela também sumiu. Quando percebeu que suas roupas haviam mudado também: vestia a mesma roupa da imagem no espelho. Olhou de volta para o espelho mas não o encontrou, se transformara em um corredor. E os dois homens ainda estavam correndo em sua direção.
Desta vez ela não tentou fugir. Simplesmente esperou pacientemente os homens a pegarem pelo braço e a levarem de volta para o seu quarto alcochoado. Agora se lembrara de tudo, não precisava mais fugir. Estava onde merecia estar.











