Arquivos de » agosto, 2009 «

19
ago
Postado por Paulinha

Ontem à noite eu estava jogando vídeo-game quando ouvi latidos do meu cachorro. Foi quando me lembrei que minha mãe havia me pedido para colocar ração para ele, porque meus pais só voltariam no dia seguinte.

Pausei o jogo e fui alimentar o cão. Estava fazendo um frio danado naquela noite e ventando muito. Hesitei por alguns instantes em sair de casa, já que o canil do dog fica no final do terreno, depois da garagem, que fica separada da nossa casa. Porém me obriguei a ir por pena do cachorro, afinal ele não tinha culpa do mau tempo, e, aliás, ir ser pior ainda pra ele ficar naquele frio e com fome.

Coloquei meu boné e minha jaqueta azul gorda e saí. Abri a garagem para pegar a ração quando ouvi o cachorro chorando. Achei estranho mas não liguei muito pois achei que ele estivesse com bastante fome, por isso o choro. Mas de repente parou de chorar.

Saí da garagem com o saco de ração na mão e chamando ele pelo nome, mas não ouvi nenhum latido ou choro, nada. Cheguei perto do canil e não o encontrei. Comecei a ficar preocupado. Abri a porta do canil e espiei dentro da casinha e não encontrei ele. Para onde ele poderia ter ido? Ou melhor, como ele poderia ter ido para algum lugar se o canil estava trancado?

Foi quando o vento parou. A sensação térmica aumentou por causa do ar estagnado. Tirei a jaqueta pois não agüentei mais o calor. No final do nosso terreno, depois do canil, tem uma parte grande onde tem bastante mato e a horta do meu pai. Achei que, não sei como, o cachorro poderia ter ido para aquela parte. Abri a portinha e entrei, chamando-o alto pelo nome. Nem sinal dele.

De repente um barulho extremamente alto que abafou minha voz. Um som metálico, inconveniente, daqueles que você se irrita apenas ouvindo por alguns instantes. E eu meu irritei logo no início. Não sabia eu que minha noite ia ser bem longa desta vez.

Aquele som foi aumentando de volume, como se estivesse chegando mais perto. Procurava por todos os lados, com as mãos tentando proteger os ouvidos, a origem daquele som. Foi quando do nada uma luz fortíssima se acendeu acima de mim. E tudo a minha volta foi perdendo a cor até desaparecer. Quando finalmente consegui distinguir alguma coisa, estava em outro lugar. Uma sala muito branca, sem móveis, sem sons e umas criaturas sem boca olhando curiosamente para mim. Eu não sei como sabia que estavam extremamente curiosos, não tinham expressão facial, nem sobrancelha nem nada, mas podia sentir isso vindo deles. Me apavorei e tentei sair dali, mas não conseguia me mover. Na verdade não conseguia nem ver meu próprio corpo, o que me deixou mais apavorado ainda. E esta é a última lembrança que eu tenho.

Acordei com minha mãe me chamando. Sentei na borda da cama e tentei me lembrar de como vim parar na minha própria cama, minha jaqueta dentro do guarda-roupa e meu boné em cima do meu notebook. E o vídeo-game desligado. Abri a porta e encarei minha mãe, que me agradeceu por cuidar tão bem do cachorro, dado comida e banho nele.

*Este conto é dedicado ao meu namorado, que quando ficamos sozinhos deixa pra alimentar o cachorro dez da noite.

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16
ago
Postado por Paulinha

Havia me mudado semana passada para uma cidadezinha escondida do mapa. Precisei perguntar para pessoas na beira da estrada porque não encontrei placas nem indicação no mapa. Nada.

A cidade era aconchegante, interiorana. O pessoal era bem quietão, dei bom dia pra alguns e recebi apenas olhares curiosos em troca. Mas não desanimei, estava decidido a prosseguir com meu estudo de caso para terminar meu livro.

Escureceu rápido. Seis horas e já era completo escuro. “Deve ser a estação do ano”, pensei. Somente depois me dei conta que a estação do ano em que estávamos era pra escurecer somente após as oito da noite.

Após jantar e ler um pouco, fui espiar pela janela. Vi algumas pessoas passando, em silêncio. Achei estranho não haver nenhuma conversa, mas tudo bem, tudo me parecia estranho mesmo.

Lá pelas dez da noite me recolhi. O quarto ficava no segundo andar da casa, me dando uma visão privilegiada da cidade. Podia ver o telhado de algumas casas e até dentro do quarto das casas que possuíam dois andares. Gostei da casa.

De madrugada o som de uma canção de acordou. Acordei e me sentei na cama, porém tive a impressão de ainda ser um sonho. Olhei pra janela e percebo uma pessoa me olhando. Mais uma vez acreditei ser um sonho. Ela dizia “Abra a janela, Tom. Deixe-me entrar” num tom suave, como se estivesse cantando. Era a melodia mais linda que já ouvi na vida. Sensual, a melodia entrava na minha cabeça e foi tomando conta da minha alma.

Caminhei até a janela sem sentir meus pés se movimentando, abri a janela sem sentir minhas mãos tocando o metal frio do trinco. A mulher me olhava dentro dos olhos, e falava comigo sem mexer os lábios. “Deixe-me entrar, Tom”, repetia ela, “Diga que posso entrar”. E eu falei, sem sentir meus lábios se mexendo, sem ouvir o som da minha própria voz. “Entre”, disse, e ela entrou com os braços esticados vindo em direção à mim. Estava tão atordoado que nem percebi que ela não caminhava, flutuava. Era a coisa mais linda que já tinha visto.

Ela chegou perto de mim e passou a mão nos meus cabelos. Senti um arrepio subir pelas minhas costas, terminando na nuca, onde ela havia colocado as mãos. Chegou perto do meu rosto e pude sentir seu perfume. Um perfume doce e suave, que até hoje está na minha camisa de dormir.

Ela foi se aproximando do meu rosto, desviou da minha boca e foi chegando perto do meu pescoço. Mais alguns arrepios subiram pelas minhas costas, mais uma vez. Senti seus lábios tocando minha pele e perdi totalmente o controle das minhas ações. Tudo que ela dissesse eu faria.

Ela puxou minha camisa em direção ao meu ombro esquerdo. Parecia que eu já sabia o que estava para acontecer, e concordava. Porém neste momento ela soltou um grito agudo e me empurrou para trás. Nos primeiros momentos não entendi o que aconteceu, mas depois me dei conta que estava com a corrente que mamãe me deu no último Natal. E nela havia um crucifixo. A mulher havia tocado os lábios justamente em cima do crucifixo, que estava em cima do meu ombro esquerdo. Toquei o crucifixo com pavor e o ergui em direção à mulher. Não me lembro do porque de ter feito isso, foi instintivo. Ela se afastou mais, ainda gritando, e saiu pela mesma janela por onde havia entrado.

Hoje me recordo de ter trancado a janela e fechado a cortina após a mulher sair, porém fiquei acordado até o sol nascer e, quando isso aconteceu, juntei todas as minhas coisas, joguei no carro e sai correndo daquela cidade horrorosa. E  ainda de pijamas.

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16
ago
Postado por Ana

Lucas era vizinho do posto de gasolina.

Todos os dias ele via caminhões enormes abastecendo lá. Conseguia ver isso da sua janela.

O cheiro de gasolina era forte pela manhã.

O barulho do lava carros o incomodava demais.

As noites eram tortuosas, já que algumas dezenas de jovens gostavam de ficar lá com seus carros, se exibindo, escutando e dançando músicas asquerosas.

Lucas odiava aquilo tudo.

Um dia ele resolveu acabar com o mau cheiro, com o barulho do lava carros e com as festas que tanto o perturbavam.

Parou em frente ao posto, pegou um cigarro, acendeu um fósforo e ligou para a imobiliária.