Arquivos de » 2009 «

14
out
Postado por Paulinha

Marina estava diante de um espelho. Mas este espelho não trabalhava como todos os outros espelhos: não mostrava sua imagem, mesmo ela ficando quase colada nele.

Era um espelho redondo e grande, do tamanho de Marina. Ela havia ganhado-o de sua avó. Na época odiou o presente – Quem dá um espelho à uma criança? – e então a avó de Marina inventava mil histórias sobre o espelho para que a menina passasse a gostar dele. Não funcionou.

Por mais que Marina fizesse estripulias na frente dele, o espelho só mostrava o quarto vazio atrás dela. Tinha comprado um vestido novo e queria ver como ficou, mas o espelho era idiota demais pra fazer o seu próprio trabalho.

Quando ela estava quase desistindo, uma sombra apareceu diante do espelho. Tinha a forma de uma pessoa, da mesma altura de Marina. Mas a imagem não se movia. Estava estática, como uma estátua. Marina ficou tão assustada que deu um grito e começou a andar em direção à porta, mas ela estava trancada. Gritou pela mãe, pelo irmão, pelo pai, mas ninguém apareceu. A casa estava totalmente silenciosa.

Foi até a janela e tentou abri-la, mas também estava trancada. Bateu contra o vidro e gritou, mas ninguém ouviu. Olhou para o espelho novamente e percebeu que a figura não havia se movido, porém havia adquirido alguma cor. Chegou perto e percebeu que a figura era uma mulher e estava vestindo uma camisola branca. Porém ainda não era possível ver seu rosto.

Marina começou a chorar. De vez em quando gritava por socorro, batia na porta e na janela, sem sucesso. E tentou se lembrar do que havia acontecido antes de entrar no quarto, mas não conseguiu. Lembrava apenas de sua mãe dizendo para ela ir buscar sua mochila para ir para a escola pois estava atrasada. – Mas isso aconteceu quando eu era criança! – pensou ela. E olhou para suas mãos e pés – Agora eu já sou uma adulta!

Ela se sentou no chão e encostou a cabeça na parede, tentando lembrar-se de outras coisas de sua vida. Como era difícil! Precisou fazer bastante esforço para lembrar-se de coisas da sua infância e adolescência. Lembrar dos pais, do irmão… Foi quando se lembrou.

Lembrou do acidente, do carro, da dor. Lembrou de tudo! Ela estava no carro com ele, ela dirigia. Era noite e estava chovendo muito quando apareceu na frente deles um carro. Marina tentou desviar, mas não conseguiu salvar totalmente o carro. Os dois veículos bateram de frente, matando seu irmão na hora. O outro motorista estava bêbado e morreu na hora também. Somente ela havia sobrevivido.

Juntamente com estas lembranças veio a dor. A dor da culpa, dor física, dor da perda. Como poderia ter se esquecido disto? Como havia esquecido do dia em que matara seu irmão? Seu irmão querido?

Neste momento ela se levantou e foi até o espelho. A figura nele havia se tornado reconhecível: era ela própria. Estava mais velha do que se lembrava, com o cabelo desarrumado e com olheiras horríveis. Marina chegou mais perto, observando a imagem – Não poder ser eu! Essa pessoa é muito velha! – pensou. Foi quando percebeu alguém no fundo do espelho, atrás da imagem. Percebeu que não era somente uma pessoa, mas duas. Dois homens corriam em direção à ela. Marina se assustou e começou a andar para trás. Olhou em sua volta porém seu quarto estava mudando. As paredes foram trocando de cor, assumindo uma cor verde claro. Os móveis todos sumiram. A janela também sumiu. Quando percebeu que suas roupas haviam mudado também: vestia a mesma roupa da imagem no espelho. Olhou de volta para o espelho mas não o encontrou, se transformara em um corredor. E os dois homens ainda estavam correndo em sua direção.

Desta vez ela não tentou fugir. Simplesmente esperou pacientemente os homens a pegarem pelo braço e a levarem de volta para o seu quarto alcochoado. Agora se lembrara de tudo, não precisava mais fugir. Estava onde merecia estar.

02
out
Postado por Paulinha

Alex estava em seu quarto sem ter o que fazer. Então decidiu inventar o que fazer. Desenhou uma porta na parede. Era apenas um retângulo, era verdade, mas para ele era uma porta. Escreveu com giz escolar para que pudesse apagar depois.

Depois que desenhou a porta, desenhou uma maçaneta. Fez somente um círculo, era verdade, mas para ele era uma maçaneta. E ela funcionava como deviam funcionar as maçanetas: abrindo portas. Ela abriu a porta que Alex havia acabado de desenhar.

Uma vez a porta aberta, não havia mais como fechá-la. Ela ficou lá, escancarada, mostrando uma escuridão sem fim. Alex não entendeu porque estava tudo tão escuro, e também porque não conseguia passar para o outro lado.

Então teve uma idéia: deve estar escuro porque eu não desenhei uma lâmpada! Mas como desenhar uma lâmpada no vazio? Então resolveu da forma mais fácil que encontrou: desenhou uma lanterna ao lado da porta. Era somente um retângulo com um círculo na ponta, era verdade, mas para ele era uma lanterna. Amarela e com uma luz forte, que nem aquela que seu pai costuma levar para a pescaria.

Alex pegou a lanterna que acabara de desenhar e a ligou. A luz iluminou todo o seu quarto. E então iluminou aquilo para o qual a lanterna havia sido criada: dentro da porta.

A princípio ele não viu nada. E continuou não vendo nada. Só conseguia ver um círculo de luz, que era a luz da lanterna. Então se lembrou: não consigo ver nada porque não desenhei nada! E então se abaixou e fez um risco reto, um pouco acima da entrada da porta. Alex deu um passo e conseguiu ficar em cima do risco. Criara o chão!

Com a lanterna foi iluminando seus pés e fazendo riscos, para que pudesse andar mais para dentro daquele mundo escuro. Depois que cansou de somente fazer o chão, resolveu fazer paredes. Mas peraí!, pensou. Porque paredes? Porque não árvores? Com casas em cima, como aquela que o Pedro tem atrás da casa dele? E assim Alex desenhou uma árvore. Era apenas duas linhas para cima e riscos desordenados no topo, era verdade, mas para ele era uma árvore. E desenhou um quadrado grande no topo da árvore. E aquela era a sua casinha na árvore.

Brincou por um tempo lá até se dar conta de que tudo era muito silencioso. E quis inventar algum barulho. Mas como desenhar sons? Desenhou o que ele achava que eram notas musicais, mas nada aconteceu. Foi quando ouviu um barulho. Um barulho feio, de ronco, parecido com o da sua mãe.

De onde veio esse som, se eu não o inventei? pensou assustado. E o barulho foi aumentando. Quanto mais queria que parasse mais o barulho parecia ficar mais perto. E pensou, com as mãos tapando as orelhas: queria fones de ouvido de piloto de avião! E um fone de ouvido de piloto de avião apareceu no chão, perto dos seus pés. Foi quando percebeu que não precisava desenhar para as coisas aparecerem, bastava imaginar. E imaginou um céu azul, muitas árvores, balanços, gangorras e mais uma infinidade de coisas que a imaginação de um menino de sete anos podia imaginar.

Quando se cansou de imaginar coisas, parou. E ouviu o barulho novamente. Então ficou bravo e gritou: saia daqui, esse lugar é meu! E o barulho parou. Quase acreditou que ele realmente tinha ido embora quando o barulho recomeçou, e dessa vez tinha forma.

Era um bicho gigante e fedido, mas sem contornos. Na verdade era só um borrão. Porém esse borrão estava correndo e berrando na direção de Alex.

Assim que Alex viu o borrão se deu conta de quem era: O Bicho Papão. Nunca tinha pensado muito nele, Pedro e João diziam que ele não existia. Mas agora parecia bem real e estava querendo pegá-lo.

Então Alex pensou: vou colocar uma parede na frente dele! E apareceu uma parede, mas ela era muito pequena e o Bicho passou por cima.

Vou colocar um buraco então! E o Bicho pulou por cima do buraco. E Alex ficou inventando um monte de coisa para parar o Bicho, mas tudo era pequeno demais para pará-lo. E nesta altura o Bicho já estava bem perto dele.

Sua mãe disse-lhe uma vez que o Bicho Papão morava em baixo da sua cama. Sempre olhou em baixo da cama e nunca viu nada. Mas agora via um Bicho Papão sem a cama. E sem saber o que fazer, começou a chorar. Chorou tanto que as suas lágrimas formaram um rio, e apagou tudo o que ele tinha inventado. Levou embora as árvores, o chão, os balanços e até o céu. Mas o Bicho Papão ainda estava lá.

Então começou a correr. Correu de volta para a porta por onde tinha entrado, mas não conseguiu porque suas lágrimas tinham levado o chão que ele tinha desenhado. E ele caiu num buraco.

Ficou caindo um bom tempo até ouvir a voz de sua mãe. Ela dizia: Alex, você está atrasado!!!! Abra os olhos, pelo amor de deus! Foi quando ele notou que realmente estava de olhos fechados e resolveu abri-los. E o que viu foi seu quarto, sua mãe com as mãos na cintura e um punhado de giz escolar ao lado da parede.

Categoria: Opus  Tags: , ,  2 comentários
16
set
Postado por Paulinha

“Hoje, 15 de setembro, morre mais um texto na internet brasileira. Em meio a milhões deles, irá se perder como uma boa alma que chega aos céus via uma nuvem de tags.

Este texto não é famoso, nem sequer foi assinado por engano em rodas de e-mail pelo Carlos Drummond ou o Veríssimo. Se pelo menos tivesse uma boceta ou um caralho bem inserido, daria até para passar por engano como um fragmento de memórias do Rubem Fonseca, ou, pra tentar salvar do esquecimento completo, uma masturbação mental do Jabor.

Mas não, ele escolheu o anonimato. Até por sua qualidade literária abaixo da linha da cintura.

Estaria aí talvez a explicação de nunca ter feito parte da coleção Vagalume, não ter conseguido carreira no cinema ou sequer ser o culpado do Bahuan não ter aparecido no final da novela.

Ele é mais um desses pobres deslidos. Nem para bula de remédio quiseram receitá-lo.

Por muita sorte, alguém pode dar com ele sem querer procurando por informações sobre um astro do cinema, um obituário bem mais interessante. A propósito, vide abaixo, Patrick Swayze. E olha quanto desgosto irônico: foram ressuscitar o cara só agora que morreu.

O epitáfio deste texto não poderia ser outro: PONTO FINAL. “

Texto copiado na íntegra do blog Tio Dino – > Aqui o link pro post dele.

Achei muito bem bolado. Se tivesse dito que era do Veríssimo eu teria acreditado.

Categoria: Inutilidades, Viagem  Tags:  2 comentários